No prédio da prefeitura não havia ninguém, e na rodoviária o mesmo senhor oriental não se interessou pela nossa companhia. Na estação ferroviária apenas um homem que não acordou de jeito nenhum. No pronto socorro haviam apenas alguns rapazes se escondendo enquanto usavam tóxicos. Estava difícil de encontrar moradores de rua, rodamos muito até acharmos dois homens andando nas proximidades do prédio da Caixa Econômica Federal, no centro da cidade, um deles muito jovem mas com a barba grande e preta usava bengala e mancava. Aparentemente extenuado, sussurrava coisas inaudíveis.
Nos locais mais visitados a surpresa, na no comércio fechado na Nações Unidas onde havia uma comuna, no depósito de água da Gustavo Maciel e na pizzaria fechada ao lado do velório Terra Branca haviam obras e modificações na estrutura, impedindo que moradores de rua se acomodem nas noites frias.
Isso me causou uma reflexão. Realmente é uma situação emblemática, por um lado os moradores de rua tem cada vez menos opções de locais para dormir, e por outro por questões de segurança e de higiene os proprietários de imóveis do centro da cidade fazem suas reformas para garantir seu patrimônio. Na minha opinião nessa história não existe o correto e o incorreto. Os moradores de rua têm a oportunidade de procurar repouso no Albergue, em pensionatos ou em demais lugares. Bem como ninguém os pode criticar por não aproveitarem essas oportunidade. Esta situação reflete o crescimento e a dialética urbana, na qual os mais fortes determinam as regras e quem quiser obedece. São as leis da selva urbana.
Aproveitamos nosso longo caminho à procura de moradores de rua para falarmos de um amigo em comum. Luciano, que é irmão de Tiago. Falei de Tiago em algumas rondas anteriores. Tiago e Luciano moram perto de casa, e tem um laço familiar com um tio meu. Por isso os conheço desde criança.
Tiago, desde novo foi relegado pela família com alguns problemas pessoais encontrou a cocaína, e depois o crack. Ele vive nas ruas e em algumas ocasiões o encontramos durante a ronda. Contei brevemente a história dele aqui. É uma pessoa próxima de mim que me causa infelicidade de encontrar nesse estado.
Certa vez em uma festa encontrei Luciano, e na ocasião falamos muito de seu irmão Tiago. Luciano disse que não se conformava da situação do irmão. Na ocasião Luciano me oferecera cocaína, e eu recusei conhecer mais esta droga dizendo me conhecer e saber que cairia no vício. Luciano me disse que não era viciado como o irmão pois usava apenas eventualmente e sabia a hora de parar, tinha responsabilidade. Pois bem, ai entra nosso assunto:
A namorada de Luciano terminou com ele, e deprimido ele buscou mais drogas, acabou entrando no crack, e agora está no caminho de seu irmão Tiago. A conclusão que chegamos é obvia, não existe margem segura para o consumo drogas, qualquer desequilíbrio emocional pode se traduzir em vício e causar grandes problemas de dependência.
Quando estávamos quase sem esperança, passamos por uma loja perto da linha férrea, na parte baixa da cidade. Lá vimos um grupo de quatro pessoas, entre eles o casal da semana passada. Um deles era um homem alto, muito alto, parecia um gigante. Tinha a voz mole, as mãos enormes e um cobertor nas costas. O último do grupo era um homem que falava muito, chamado Washington. Depois de alguns minutos ainda chegou mais um rapaz.
Com eles deixamos algumas roupas, lanches e um pouco de bolo. Antes de nossa partida Washington perguntou se não iriamos rezar com eles, eu disse que se ele puxasse rezaríamos. Ele então fez uma prece de agradecimento e um Pai Nosso. Partimos aliviados por termos encontrado amigos e conversado um pouco sobre a vida. No nosso caminho várias vezes encontramos oportunidades que podem nos levar para baixo, para as drogas e para a rua. Espero propiciar às pessoas que eu encontro cotidianamente esperança e boas oportunidades.
