sábado, 2 de junho de 2012

Ronda Noturna 01/06/2012

Na noite de primeiro de junho, depois de uma tarde chuvosa partimos Vinicius, Vitor e eu. Com a ajuda de amigos contávamos com leite, roupas, bolo, lanches, café e disposição. Fomos percorrendo os pontos de sempre, chegado primeiramente à farmácia da Av. Duque de Caxias. Lá encontramos três homens já conhecidos dormindo, entre eles o Mudinho que dormia profundamente e não o interrompemos, deixando seu lanche ao lado e partindo.

No prédio da prefeitura não havia ninguém, e na rodoviária o mesmo senhor oriental não se interessou pela nossa companhia. Na estação ferroviária apenas um homem que não acordou de jeito nenhum. No pronto socorro haviam apenas alguns rapazes se escondendo enquanto usavam tóxicos. Estava difícil de encontrar moradores de rua, rodamos muito até acharmos dois homens andando nas proximidades do prédio da Caixa Econômica Federal, no centro da cidade, um deles muito jovem mas com a barba grande e preta usava bengala e mancava. Aparentemente extenuado, sussurrava coisas inaudíveis.

Nos locais mais visitados a surpresa, na no comércio fechado na Nações Unidas onde havia uma comuna, no depósito de água da Gustavo Maciel e na pizzaria fechada ao lado do velório Terra Branca haviam obras e modificações na estrutura, impedindo que moradores de rua se acomodem nas noites frias.

Isso me causou uma reflexão. Realmente é uma situação emblemática, por um lado os moradores de rua tem cada vez menos opções de locais para dormir, e por outro por questões de segurança e de higiene os proprietários de imóveis do centro da cidade fazem suas reformas para garantir seu patrimônio. Na minha opinião nessa história não existe o correto e o incorreto. Os moradores de rua têm a oportunidade de procurar repouso no Albergue, em pensionatos ou em demais lugares. Bem como ninguém os pode criticar por não aproveitarem essas oportunidade. Esta situação reflete o crescimento e a dialética urbana, na qual os mais fortes determinam as regras e quem quiser obedece. São as leis da selva urbana.

Aproveitamos nosso longo caminho à procura de moradores de rua para falarmos de um amigo em comum. Luciano, que é irmão de Tiago. Falei de Tiago em algumas rondas anteriores. Tiago e Luciano moram perto de casa, e tem um laço familiar com um tio meu. Por isso os conheço desde criança.

Tiago, desde novo foi relegado pela família com alguns problemas pessoais encontrou a cocaína, e depois o crack. Ele vive nas ruas e em algumas ocasiões o encontramos durante a ronda. Contei brevemente a história dele aqui. É uma pessoa próxima de mim que me causa infelicidade de encontrar nesse estado. 

Certa vez em uma festa encontrei Luciano, e na ocasião falamos muito de seu irmão Tiago. Luciano disse que não se conformava da situação do irmão. Na ocasião Luciano me oferecera cocaína, e eu recusei conhecer mais esta droga dizendo me conhecer e saber que cairia no vício. Luciano me disse que não era viciado como o irmão pois usava apenas eventualmente e sabia a hora de parar, tinha responsabilidade. Pois bem, ai entra nosso assunto:

A namorada de Luciano terminou com ele, e deprimido ele buscou mais drogas, acabou entrando no crack, e agora está no caminho de seu irmão Tiago. A conclusão que chegamos é obvia, não existe margem segura para o consumo drogas, qualquer desequilíbrio emocional pode se traduzir em vício e causar grandes problemas de dependência.

Quando estávamos quase sem esperança, passamos por uma loja perto da linha férrea, na parte baixa da cidade. Lá vimos um grupo de quatro pessoas, entre eles o casal da semana passada. Um deles era um homem alto, muito alto, parecia um gigante. Tinha a voz mole, as mãos enormes e um cobertor nas costas. O último do grupo era um homem que falava muito, chamado Washington. Depois de alguns minutos ainda chegou mais um rapaz.

Com eles deixamos algumas roupas, lanches e um pouco de bolo. Antes de nossa partida Washington perguntou se não iriamos rezar com eles, eu disse que se ele puxasse rezaríamos. Ele então fez uma prece de agradecimento e um Pai Nosso. Partimos aliviados por termos encontrado amigos e conversado um pouco sobre a vida. No nosso caminho várias vezes encontramos oportunidades que podem nos levar para baixo, para as drogas e para a rua. Espero propiciar às pessoas que eu encontro cotidianamente esperança e boas oportunidades.

domingo, 27 de maio de 2012

Ronda Noturna de 25/05/2012

Na noite de 25 de maio, após muitas noites sem a ronda voltamos às atividades. Estive impossibilitado por motivo de trabalho, e o tempo que passei sem a ronda me fez refletir muito sobre a real necessidade do nosso trabalho.


Depois de uma noite quase em claro, problemas pessoais, crises e uma viagem de minha mãe me deixando sozinho em casa, recebi o convite do Vitor por SMS para fazermos a ronda novamente. Algo me dizia que não deveria recusar este convite. Vitor havia ganhado os pães com mortadela de seu tio, e seu primo Vinicius estava também interessado em conhecer o projeto. Falei por mensagem com o Guilherme que também se dispôs a comparecer. 


Partindo como sempre, dessa vez na companhia de Vinicius, revimos alguns amigos na marquise ao lado da farmácia, na Duque de Caxias. Segundo informação do mudinho, outro grupo havia passado à pouco tempo. Partimos para a região mais central. Conversávamos sobre vários assuntos, dentre eles nossos velhos conhecidos Amanda e Vanderson. Guilherme disse que ia buscar mais notícias deles nessa semana.


Na Rodoviária encontramos um senhor com traços orientais que não conversou conosco, nem mesmo aceitou nossa ajuda. De lá, passamos pelo local onde encontramos Cícero na primeira ronda, e estava lá um casal. Ronaldo acordou e aceitou nossa ajuda, e não conversamos muito em respeito pela sua companheira. Evidentemente deve ser constrangedor ser acordado no meio da noite com sua companheira dormindo ao relento.


Passando pela prefeitura encontramos mais um senhor, que dormia junto ao Paço Municipal. Muito bem escondido, este senhor disse ser de Bauru, e não deu mais explicações. Respeitando seu sono partimos.


Como acabavam nossos proventos, atendemos mais dois amigos que estavam na Estação Ferroviária. Dentre eles estava o Max, velho amigo de Guilherme do bairro onde crescemos. 


Partimos para casa com a esperança de voltarmos na próxima semana, e conscientes de que, embora hajam muitos que façam exatamente a mesma coisa que nós, isso não reduz a necessidade dos moradores de rua, não nos isenta do nosso compromisso e da nossa responsabilidade, e finalmente não resolve o problema social em questão.



domingo, 18 de março de 2012

Belo Monte e as matrizes energéticas no Brasil

Lembro-me da época de cursinho e das aulas de Geografia, em que o professor dizia que para um País de desenvolver precisa ter domínio nas áreas de transporte, tecnologia e energia. Bem, não sou nenhum especialista no assunto mas pretendo escrever um pouco sobre essa questão. Evidentemente o Brasil não explora como poderia os rios e as ferrovias para dinamizar o transporte de mercadorias pelo País, e também não investe em universidades públicas e em ciência de ponta, deixando a pouca tecnologia que temos nas mãos da iniciativa privada - quase sempre representada por empresas multinacionais - e sendo um grande exportador de matéria prima, mas importador de produtos finais com valores agregados. Não seria diferente com a energia, mas esse caso trás muitas questões.


Podemos dizer que no campo da energia o Brasil se desenvolveu muito na extração de petróleo, e só. No meu tempo de cursinho nosso País vivia o perigo de um apagão energético, e esse risco foi afastado com um plano de contensão, a construção de algumas usinas hidrelétricas e muita conscientização da população. O risco foi afastado, as coisas voltaram ao normal, o País cresceu e hoje se fala na aquisição de mais energia. O principal símbolo dessa fase de aquisição de matrizes energéticas é a Usina de Belo Monte, que está em construção no Estado do Pará.


Existe um documentário produzido com verba própria que fala muito sobre os problemas que envolvem a construção de Belo Monte, vou disponibilizar o vídeo aqui e recomendo que vejam.


http://vimeo.com/cinedelia/bm


O que quero levantar como ideia aqui é que com tanta tecnologia disponível para geração de energia, por que investir milhões e milhões em uma fonte que indiscutivelmente causa tanto impacto ambiental? Chego a me perguntar se o consumo de energia no Brasil cresceu mesmo tanto assim para que tenhamos essa preocupação agora, e se cresceu não irá continuar a crescer por acaso? Então em breve teremos outros projetos para novas Usinas e assim nunca vamos parar.


Pelo que podemos ver no vídeo acima, do projeto Cinedelia a obra de Belo Monte não é sustentável e tem interesses escusos de poderosos. A opinião pública precisa ter acesso e discutir essa situação. O domínio de matrizes energéticas não se traduz em construção de usinas em áreas de assentamento indígena, ainda menos quando essas obras não contemplam os interesses energéticos da população. 

sábado, 10 de março de 2012

Ronda Noturna de 09/03/2012

Na noite de 09 de março saímos como habitualmente, Guilherme, Vitor e eu por volta das 23H. Logo na esquina do Hospital de Base, no lugar de sempre acolhemos o mudinho e mais um amigo. Nesse momento estavam passando Vanderson e Amanda, e aproveitamos para conversar um pouco com eles.


Não ficamos muito tempo e partimos para a rodoviária, mas não encontramos ninguém por lá. Então aproveitamos para ver nossos amigos da Nações Unidas. Lá encontramos Flávio, Wellington entre outros. A carta enviada por Guilherme à família da Flávio fora respondida, e durante a semana ele havia lhe entregue. A carta continha documentos enviados por seu avô para que ele pudesse procurar internação. Guilherme ainda recebeu uma ligação do avô de Flávio, agradecendo o apoio e pedindo que não deixasse de ajudar. 


Alguns dos presentes consumiam "crack" atras de um biombo improvisado com papelão, Wellington parou de consumir e veio nos receber. Logo foram chegando outros e mais outros. Muitos estavam ao nosso redor, e todos nos respeitavam. Os moradores de outro ponto, ali próximo, na esquina da Av. Nações com a Av. Nuno de Assis também estavam lá para consumir "crack", entre eles Marcinho e Edna, que também é conhecida como Betão, com sua namorada, ou sua "mina" como ela dizia. Os diálogos não tinham nexo, nada fazia sentido. Nós que estávamos muito lúcidos achávamos muito engraçada a conversa toda:


- Meu, você tá de camisa branca... que louco, adoro essa cor. A cor do anjo do bem!


- Eu tenho vergonha de fumar "crack" com a camisa do Bob Marley, por isso que ela está do avesso. Se eu arrumar um baseado hoje eu desviro ela, se eu for fumar uma pedra ela vai continuar do avesso.


Marcinho me disse que saiu de casa, e agora estava vivendo com uma mulher na rua. Esta sua companheira havia deixado o esposo que a espancava. Ele disse que os dois não consumiam drogas, apenas a cachaça.
Ficamos lá um pouco e saímos em direção ao Centro da cidade.


Nos arredores do Centro Vitor avistou um colchão e alguns travesseiros gentilmente colocados perto da lixeira de uma casa. Paramos e apanhamos esses objetos afim de entregar para alguém que precisasse.


Na praça Machado de Melo estavam Luiz e mais um rapaz, que não quis acordar. Conversamos brevemente com Luiz e ele nos pediu uma calça. Foi atendido em seu pedido e ficou muito satisfeito. De fato sua calça estava muito rasgada.


Passando pela 15 de novembro, atrás da igreja Santa Terezinha encontramos Kleber. O jovem rapaz nos contou que fora despejado de casa, mas com muito esforço conseguiu que sua esposa e as filhas não tivessem que sair. O dono do imóvel pediu sua casa, e ele só conseguiria outra na próxima terça-feira. Até esse dia ele ficaria na rua. 


Disse trabalhar como garçom, e que já se envolveu com as drogas, mas havia deixado essa vida por causa de uma conversão. Por isso procurou um lugar afastado do movimento para dormir, justamente para ficar longe das drogas. Resolvemos deixar o colchão e os travesseiros com ele, e também algumas camisetas. Ele ficou muito grato, e sentimos confiança no rapaz. 


Partimos para nossas casas refletindo sobre mais essa noite de aprendizado.

domingo, 4 de março de 2012

Complexo de São Francisco

Por vezes quando me deparo com um morador de rua, especialmente nas noites de sexta-feira em que saio para fazer a Ronda Noturna, sinto que minha atitude pequena diante dele não vai livrá-lo das suas dificuldades, nem mudar a sua vida. De fato, seria preciso muito para mudar a vida de uma pessoa que vive nas ruas. Minha pretensão não é mudar a vida de ninguém, quando muito a minha. Imagino que possa sanar uma dificuldade momentânea da pessoa, e que eu possa adquirir experiência de vida. Está experiência me propicia renunciar por vezes a alguns luxos dispensáveis, que configuram desperdício.


As vezes a pobreza até me atraí. Sinto vontade de passar uma noite ao relento, de comer o essencial, de não ter travesseiro ou lençol. Isso apenas para provar ao meu orgulho que sou capaz de viver com menos do que acredito. Parece um Complexo de São Francisco.


Francisco de Assis era jovem quando deixou a riqueza de sua família e foi morar com os pobres, usando roupas de sacos e mendigando comida. Ele viveu na idade média na Europa, numa sociedade estamental em que ser rico era muito importante, refletia um grau de nobreza que não era para muitos. Francisco mudou a Europa, a estrutura religiosa, conquistou milhares de seguidores e foi considerado santo pela igreja católica. Durante centenas de anos foi referência na igreja por sua caridade e humildade.
São Francisco e cenas de sua vida,  Bonaventura Berlinghieri. 


No século XIII ou agora, não ter um teto sobre a cabeça é humilhante, é perigoso. Porém, atualmente temos muitas igrejas. 
Vou explicar:


Se houvessem tantas igrejas no século XIII quanto existem hoje não existiria tanta pobreza. Hoje existem igrejas, mas os fiéis estão muito preocupados em construir mais igrejas, santuários, casas paroquiais. O foco mudou muito. A chamada teologia da prosperidade e o individualismo fizeram aos poucos as igrejas se preocuparem mais com o conforto e a sofisticação, com o ar condicionado e as cadeiras almofadadas. Afinal, se paga o dízimo para ter uma boa estrutura, como um clube. 


Depois se fala em saúde pública e em outros problemas sociais com a propriedade de quem incentiva muito seus fiéis a participarem da vida política. Bom, quando o assunto é um candidato que dizem ser a favor do aborto ou dos direitos dos homossexuais a igreja sempre se manifesta, apenas isso.


Como já disse, não tenho a ambição de mudar a vida dos moradores de rua que encontro, na verdade imagino que eles não queiram mudar suas vidas. Se eles quisessem mudar eles nem precisariam de mim para isso. Nem mesmo acredito que deixar todo o pouco que eu tenho para mendigar iria ajudar a alguém, longe disso, o pouco que tenho me serve para poder ajudar mesmo de uma forma tímida. Mas acredito que as instituições religiosas deveriam servir para facilitar a distribuição dos bens, e propiciar um encontro entre a sociedade e os marginalizados. 


Do contrário as igrejas deixaram um legado de centenas de santuários do divino pai eterno, cancões novas, entre outras instituições financeiras religiosas conhecidas, que serão frequentadas por pessoas que querem esquecer um pouco o mundo em que vivem, apagar a imagem ruim da realidade sabe?! Como os moradores de rua que são queimados perto de Brasília-DF.


Pois bem, se isso que escrevi incomoda alguém, muito bem, essa era a intenção. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ronda Noturna de 02/03/2012

Em mais uma noite de sexta-feira, enquanto muitos se divertiam e deixavam suas casas rumo aos pontos noturnos de Bauru, com o trânsito intenso e agressivo nas ruas da cidade, Guilherme (Rato) Vitor e eu estávamos dispostos a cumprir nosso objetivo de toda semana, propiciar uma troca de experiências entre nós e os moradores de rua.


O que me chama a atenção a cada dia neste nosso projeto é que temos a oportunidade de se deparar com aqueles que a sociedade quer esquecer. E quantas vezes covardemente buscamos nos esquecer dos nossos erros? Tenho percebido que muitos dos que moram nas ruas querem mesmo serem esquecidos, preferem não ter contato com a sociedade, pois a sociedade que conhecem é uma sociedade que relegou à eles a posição de mendigos e os levou para as ruas. Nós regeneramos o vínculo social dos nossos amigos, na medida em que como membros da sociedade vamos ao encontro deles. Aos poucos e quase sem perceber nós fazemos eles se lembrarem quem são.


Logo na Avenida Duque da Caxias, ao lado da farmácia encontramos o Mudinho e o Ceará, e em seguida chegou José Laércio. Comeram lanches e bolo de fubá, e tomaram café com leite. Seguimos pelo Centro até a rodoviária onde reencontramos Dona Antônia, que há tempos não víamos. Por estar com uma fisionomia diferente, certa hora não tive certeza que fosse ela, até que após ser servida ela disse o tradicional: "Tá, tá... ta bom então!" quase se despedindo ser dar muito papo. Porém, dessa vez ela falou um pouco mais, e explicou que esteve na casa de parentes em outra cidade. Ficamos realmente felizes por tê-la reencontrado, sabendo estar tudo bem.


Fomos para a Avenida Nações Unidas, próximo à rotatória da Nações Norte onde ficavam nossos amigos com os quais tiramos fotos, mas só encontramos Flávio. Ele nos disse que conseguiu uma internação, pois quer mudar de vida. Novo, com apenas 21 anos, ele tem condições concretas de se recuperar. Ficamos muito felizes com a sua decisão, e ele nos convidou para fazer uma oração, na qual Vitor e Rato aceitaram de pronto. Contou-nos ainda que Cido não estava mais por ali, depois de ter arrumado uma briga com outro morador de rua que queria mata-lo. Para poupar os colegas de confusão ele se mudará. Guilherme ainda não obteve resposta das cartas que enviou, infelizmente, mas ainda aguardamos por novidades.


Na praça Machado de Melo, sob a marquise da Estação Ferroviária encontramos o Ourinhos, que em outra ocasião estava ao lado da farmácia da Duque de Caxias. Nosso amigo falou um pouco de sua vida e como havia parado na rua ao terminar um relacionamento. Disse que buscava internação para se livrar do álcool. 


Quando nos encaminhávamos para nossa etapa final, já com poucos pedaços de bolo e alguns lanches, mal sabíamos que ainda encontraríamos figuras que nos fariam rir. Parados no semáforo vimos Eva, que tem os cabelos todos grudados. Ele aceitou bolo e um pão, também um copo de café, e deu um conselho formidável ao Guilherme:


- Olha, você que é mais velho que eu, não fica acostumando mal as pessoas não, senão você nunca vai parar.


Evidente que Vitor e eu contivemos o riso quando ela disse que o Rato era mais velho que ela, mas não o poupamos quando o sinal abriu e nos distanciamos de Eva.


Ao lado do velório Terra Branca encontramos um senhor dormindo, era o Baixinho que era bem engraçado e aceitava bem as nossas brincadeiras. Entrou no ritmo rápido, se despedindo de nós com flatulências.


Partimos para o Pronto Socorro, onde enquanto atendíamos Paulo, vimos passar o Vanderson e a Amanda. Ali terminavam nossos alimentos, encerrando com um rapaz que cuidava de carros na rua. Vanderson e Amanda nos convidaram para visitá-los, e ficaram pouco. Nossa atividade se encerrava, porém, um homem que observava tudo do banco do passageiro chamou Guilherme para conversar. Segundo ele, o rapaz é dono de uma padaria, e colocaria à nossa disposição pelo menos 100 pães quando precisávamos.


Depois de uma grande dinâmica em uma noite quente, já completávamos nosso objetivo e voltávamos para casa. Certamente não nos deixaríamos esquecer às noites de sexta-feira. Comentamos que muita gente busca ajudar nosso projeto, isso prova que muitas pessoas querem fazer algo de bom pela sociedade e pelos esquecidos, nós somos apenas um instrumento. É muito bom poder contar com pessoas tão maduras e dispostas nesse trabalho.


Muito Obrigado aos amigos!


Carlos Neto

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ronda Noturna de 24/02/2012

A chuva deu uma brecha na noite bauruense quando saímos para mais uma ronda, Carlos ao volante e Vitor vieram em meu encontro.
 
Para nossa surpresa, na rua de casa já havia um homem deitado na calçada, trajes humildes e sujos, coberto por um plástico, protegendo-se das interpérries que poderia estar por vir.
 
Paramos e ao acordá-lo, perguntei se gostaria de comer um lanche e tomar um café, onde como resposta tive um sorriso com muita alegria, em um rosto abatido pela vida dura. Apesar de ser novo, Altair dialogava sobre sua família, seus 4 filhos, sendo a mais velha com 13 anos, e o mais novo com 2 anos e meio de idade.
 
Falava abertamente enquanto se alimentava de suas vivências, seu modo de levar a vida após a separação conjugal e como fazia pra angariar um dinheiro pra se manter na rua.
 
Altair encucava em dizer que sua filha mais velha batia na criança de dois anos e meio, sobre vistas grossas de sua ex-parceira, ainda lamentando que por alguns motivos de desinteligência (brigas), estava a ser procurado pela justiça.
 
Como o contraste da vida é interessantíssimo né???
 
Dor, sofrimento, pobreza, vícios, falta de uma base familiar... um aglomerado de situações que transformam o homem em um elemento opaco para a sociedade, visto como problema para muitos, um desconforto para vizinhos arredios quando um tal mendigo se abriga em frente as casas, apenas para pedir um prato de comida, ou descansar de sua coleta de recicláveis.
 
Por ironia ou não, Altair dormia feliz, sonhador, com uma frase que lhe cobria, estampada no plástico, servindo de cobertor..." O dia amanhecerá mais feliz".
 
Talvez Altair nem tinha reparado aquela frase ali, talvez nem soubesse ler, talvez leu e duvidou que algo poderia ocorrer, talvez sua fé, sua perseverença brilhou, e por meio de nós, mesmo que o amanhecer não fosse muito melhor, aquele momento já dizia tudo, era um momento de reflexão pra ambos, e com certeza foi especial.
 
Saímos dali com destino ao centro da cidade, passamos pela Duque onde Ceará e o Mudinho estavam abrigados, deixamos lanches, bolo de chocolate e café com leite, brevemente perguntamos como foi a semana, coisa e tal, e seguimos deixando-os descansar.
 
Fomos em direção a Nações Norte, à procura de Wellintom, Cidão e Flávio que outrora fiquei responsável por enviar cartas às famílias. Levava comigo fotos reveladas de momentos entre nós em uma ronda passada, e deixaria com eles uma cópia da mesma pra sempre lembrarem do momento.
 
No local de costume não encontramos ninguém, o que foi uma pena, pois gostaríamos mesmo de poder conversar com eles. 
 
Dentro do carro conversávamos sobre a construção do Shoping Nações, e dos benefícios que traria a cidade e tal, então passamos ao lado da construção para olhar, e o destino se mostrou como ferramenta na ronda, pois ali ao lado em baixo de uma marquise estam dois homens dormindo.
 
Um deles era oriundo de Marília (assim como Altair) e sua aparência era A LA HOMEM DA CAVERNA, uma generosa barba, cabelo todo armado e rebelde e seu físico desprovido de músculos, risadas a parte, era engraçado ver como viva aquele homem, parecia estar em um outro mundo, sem conexão com o mundo atual...um contraste enorme pra uma cidade. Com os pés cortados, sangrando alguns pertences jogados ao redor, vivia de esmolas e biscates (pequenos serviços, bicos).
 
Do outro lado, dormia Renato Lopes, embriagado de sei lá o quê... dormia como se o carnaval acabara a poucos minutos!
Ofereci um lanche, e o mesmo quase pelado, mostrando seus dotes (rsrsrsrs) resmungava que não queria nada. Na rua vemos de tudo mesmo! rs
 
Deixamos com alguns lanches pra a refeiçao matinal, e continuamos nosso percurso entre reflexões e risadas, sentimentos e dúvidas, muitas perguntas e poucas respostas... mas como senso entre nós, alguns estão ali por causa das drogas, seja qual ela for, e outros a droga os colocou ali, uma via de mão dupla, que a sociedade ainda não sabe ao certo como lidar.
 
Passamos pelo centro da cidade e conhecemos um rapaz que dormia no ponto de táxi próximo a Rodrigues Alves, um tanto bêbado e também com sono, carregava consigo uma bolsa, onde portava sacos pásticos pra venda. Aceitou um lanche e disse ter família, filhos no bairro Ouro Verde, mas estava por prefirir a rua.
 
Na Mamá (Machado de Melo) avistamos entre malas e uma bíblia um homem dormindo, ao acordá-lho em primeira palavra disse com muito entusiasmo:
 
Obrigado mesmo, mas é claro que aceito um lanche!
 
Disse de sua vivência na cidade, nacido em Echaporã, onde sua família ainda reside. Falou de sua angústia por viver na rua, mas que sempre faz amigos, mesmo com os policiais da base ali perto, mas sempre com um pé atrás, rs.
 
Faz coleta de recicláveis pra sobreviver, e não escondeu de nós sua passagem pela cadeia, anos no escuro, por ter tirado a vida de outro homem. Falou que pela justiça dos homens não deve mais nada, porém não sabe se a justiça Divina irá cobrá-lo.
 
Vive um dia após o outro, e percebemos que por ele, adoraria ficar a prosiar por mais tempo, uma carência de conversar, ouvir e falar, que no mundo da rua é tudo. Ser Visto! Ser ouvido!
 
Partimos com satisfação por ter ajudado, não somente com a partilha de alimentos, mas de palavras, de estórias de vidas.
 
Madrugada a dentro, paramos em frente de casa e entre boas risadas e anseios de noites melhores pra gente e pra todos que estão marginalizados, fizemos uma ceia.
 
Talvez, a cada dia um a mais vai buscar nas ruas sua vida...
Talvez, a cada dia um na rua perdeu a vida.
Talvez, tudo não passe de um mal momento...
Talvez, seja o melhor momento que possam viver.
 
Talvez,a sociedade os ocultam...
Talvez, se ocultam por si só, buscando na solidão uma luz.
Talvez, ontem, hoje, amanhã...
Talvez, eu, você ou alguém.
 
Talvez...
 
 
Pense nisso! Ótima semana a todos, obrigado àqueles que fazem doações pra nosso projeto, vocês fazem o slogam O DIA AMANHECERÁ MAIS FELIZ ser verdadeiro pra muitos. Obrigado mesmo.
 
PAZ



Guilherme (Rato)